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Entrevista - ERC
Quarta, 06 Abril 2011 13:51

Entrevista - ERC (2010-10-26)

Quais os principais argumentos que podem convencer os telespectadores portugueses a voluntariamente adoptarem a TV digital?

O primeiro grande argumento é o aumento da qualidade da emissão. A passagem para o digital acarretará naturalmente uma melhoria do sinal daquilo que é recebido. Essa é a primeira grande questão. Depois, a possibilidade de, num futuro próximo ou de imediato, passar à alta definição, em que se tira partido de todas as potencialidades que os novos formatos de imagem nos proporcionam – o 16:9 concretamente. A questão radica sobretudo na alteração substancial da qualidade de imagem e na possibilidade de se ter uma maior oferta de conteúdos.

O que pode motivar ou incentivar os Portugueses mais reticentes a adquirirem um televisor ou uma caixa descodificadora de TV digital?

Penso que, para os mais reticentes, o que determina é a variedade ou não de conteúdos que possam vir a receber, e que tipo de conteúdos possam vir a receber. Estou completamente convencido de que a oferta de mais conteúdos - e sobretudo conteúdos de proximidade - é capaz de alavancar a compra do descodificador. Tudo reside obviamente na melhoria da qualidade da imagem, mas também na maior oferta de conteúdos.

Em Espanha a TV digital trouxe o desenvolvimento de mais canais regionais. Acha que Portugal pode seguir um caminho semelhante?

Sim, estou convencido de que até mais os locais do que os regionais.

A compra de televisores ou de caixas descodificadoras deve ser subsidiada?

Enquanto membro da ERC não me devo pronunciar formalmente sobre isso porque é uma questão de opção e da política governamental.

Quais os principais obstáculos ou barreiras à plena adopção de TV digital em Portugal? 

A principal barreira que existe, neste momento, é a ausência de informação. Primeiro deve explicar-se a (situação) a cada um dos consumidores, quase como se fosse uma venda directa. Tal como se vende o cabo ou o IPTV, deve haver uma explicação directa, porta a porta, a todos os consumidores, sobre as vantagens da televisão digital. O digital tem que ser explicado às pessoas. Não é só a compra da caixa descodificadora, é a adaptação da antena… O objectivo da campanha tem que ser explicar que há um conjunto de procedimentos que melhoram a qualidade do sinal e que a distribuição é gratuita. As pessoas não têm nada que pagar. Não podemos deixar transparecer ao consumidor – e sobretudo àqueles mais necessitados – que para ver televisão, a partir de agora, têm de fazer uma assinatura, qualquer que ela seja. Tem que se explicar que o uso da televisão digital é gratuito. As grandes barreiras poderão ser ultrapassadas com uma boa política de comunicação. Explicar às pessoas que, de facto, há aqui uma melhoria, há uma evolução tecnológica e que a TDT vai trazer novas potencialidades como, por exemplo, as pessoas no futuro poderem ter acesso à internet através da televisão.

O facto do 5º canal gratuito não ser lançado, à partida, antes da data do switch-off – previsto para 26 Abril de 2012 - é prejudicial ao sucesso da adopção TV digital?

No meu ponto de vista, não é fatal para o projecto porque, a termos um 5º canal, temos que ter as condições. Não devemos ter um 5º canal à força só para ter. Os processos de selecção têm que obedecer a critérios rigorosos e foi isso que a ERC considerou na apreciação dos projectos. Esta é a grande questão. Mas, de facto, não alavanca muito não ter mais um canal para oferecer. No entanto, é uma questão de avaliar as condições de mercado, o resultado do processo judicial que está em curso e, depois, repensar outra vez o problema. A questão que eu continuo a sublinhar é, de facto, uma questão de comunicação porque nós já estamos praticamente em simulcast apesar de os portugueses não o saberem. Esta é que é a grande barreira e é a grande questão. Depois, em relação aos novos conteúdos, há instrumentos na lei que prevêem o aparecimento de novos conteúdos, como as televisões locais ou regionais. São esses novos conteúdos que depois de amanhã poderão surgir na distribuição por digital terrestre. E nada impede que venha a existir um 5º canal.

Que recomendações faria no sentido de contribuir para um processo bem sucedido de conversão do sistema analógico de TV para o digital?

O digital terrestre vai permitir que as pessoas, em primeiro lugar, tirem partido dos aparelhos que têm em casa. Hoje, o mercado 16:9 e o mercado de televisões com possibilidade de receber TDT ou receber a Alta Definição já é significativo no parque dos televisores. Portanto, é a mesma coisa que eu ter um “rolls royce” e não ter estrada. É fundamental que se tire partido dos equipamentos que temos e de tudo aquilo que lhe está associado, como o aprimoramento da nossa capacidade produtiva de conteúdos. Há toda uma indústria à volta da televisão digital que vai obrigar a termos cuidados especiais na própria produção e potenciar os espaços e as larguras de banda que são permitidas a cada um dos operadores.

Como chegar às pessoas de idade, com baixa literacia tecnológica e com necessidades especiais?

Já hoje, no actual estádio da televisão, nomeadamente no que diz respeito às acessibilidades, ainda há muito por fazer em Portugal. Vamos ter que fazer bastante e a nossa última conferência teve um painel sobre isso. Demonstrou que, de facto, nós já fizemos bastante em Portugal, mas teremos que fazer mais. No meu ponto de vista, teremos que fazer de uma forma mais inclusiva dos agentes da produção do audiovisual. Neste momento, essa tarefa está – e bem – atribuída principalmente aos operadores. Têm que ser eles a ultrapassar e a criar mecanismos de acessibilidade. Penso que, daqui a algum tempo, os nossos operadores vão ter que começar a oferecer produtos já com esse elemento – os produtos dirigidos às pessoas com dificuldades de acesso - incluído no próprio produto. No que respeita à TDT, essas barreiras têm que começar a ser ultrapassadas na própria produção dos conteúdos, mais do que propriamente na exibição e na distribuição. A própria produção dos conteúdos tem que começar a ter isso em conta. Atendendo à questão do digital, é preciso estudar sobretudo como é que a TDT pode resolver o problema da áudio-descrição. Esse é um problema que tem que ser estudado, porque actualmente a áudio-descrição aplica-se pelas estações que têm uma banda de rádio e que podem, através da rádio, fazer a áudio-descrição.

Para os idosos, o grande problema é a leitura das legendas. Com certeza, terá que se caminhar para a dobragem e é preciso haver algum investimento nessa matéria.

Como avalia a comunicação que está a ser feita em relação à conversão da televisão analógica para o digital?

Eu ainda não vi nada. Ainda estamos no ponto 0. Nesta altura, parece-me que, para haver o primeiro switch-off em Fevereiro, ainda estamos atrasados. No meu ponto de vista, não basta uma campanha de comunicação genérica, mesmo que seja para um concelho, se não houver alguém que explique às pessoas, tal como se explica para a fibra óptica, aquilo que têm que fazer em casa: a colocação da caixa, reorientação das antenas, etc. Vai-se verificar que algumas pessoas já têm aparelhos e é preciso clarificar isso. Caso contrário, podemos assistir a situações de pessoas que compraram caixas quando não precisavam delas. É preciso haver uma campanha de porta-a-porta, a explicar e a ser muito claro nessa matéria. Não basta apenas fazer uma campanha de televisão porque, nesses segundos, explica-se muito pouco. Há que fazer aquilo que normalmente fazem os homens do “direct mailling”, etc. Parece-me que está tudo muito atrasado. É preciso ir a casa das pessoas. Depois, tudo isto é como uma mancha de óleo: basta fazer estrategicamente alguns concelhos porque muitos deles são vizinhos e passam a mensagem. E deve contar-se com uma colaboração intensa dos próprios operadores locais e da imprensa local, das Juntas de Freguesia, etc. Deve ser uma campanha muito bem pensada e que não cause equívoco nenhum. Que a criação artística de uma campanha de comunicação não crie equívocos a quem ela é dirigida.

O que fazer com o dividendo digital, ou seja, com o espectro radioeléctrico disponível após o desligamento do sinal analógico?

Penso que nós, enquanto reguladores, deveremos olhar com alguma preocupação para a questão do dividendo digital. No nosso ponto de vista, não adianta ter frequências se não tivermos conteúdos para elas. Estamos numa época de recessão económica, por isso, o surgimento de novos operadores será sempre difícil e portanto, ao fazermos uma afectação do dividendo digital, devemos ter em consideração, em primeiro lugar, aquilo que os actuais operadores pretendem; em segundo lugar, saber para onde é que é fundamental olhar. Para outros operadores, ainda que mais pequenos, dirigidos localmente ou o que quer que seja. Olhar prioritariamente para os conteúdos e estudar junto dos actuais operadores, dos agentes de mercado, antes de partirmos para uma afectação por sensibilidades. E ter sempre em conta que independentemente da evolução tecnológica, nós não podemos tomar decisões hoje na afectação do dividendo digital que possam condicionar decisões que a ocorrer daqui a 15/20 anos, face à evolução de tudo isto. É preciso pensar a longo prazo. Hoje falamos todos do IPTV, falamos todos no broadband e como é que será daqui a 20 anos? Como é que será daqui a 25 anos? Será que vamos pensar outra vez noutro tipo de distribuição? É preciso ter em linha de conta um conjunto de factores e sobretudo não comprometer já o futuro.

Como caracteriza a estratégia dos governos portugueses no domínio da televisão digital?

Como lhe disse, nós ainda não sentimos nada. Não sentimos nenhuma campanha. É evidente que estamos em período de algumas dificuldades económicas, e isto não é, nem pode ser, uma prioridade do país neste momento. Mas julgamos que tem que ser feita alguma coisa. Pelo menos ao nível do cidadão, não se sente que o digital está aí a surgir. E o Governo, bem como a distribuição, têm algum tipo de responsabilidade nessas obrigações.

Qual deve ser o papel do operador de serviço de público de televisão – RTP?

Igual ao dos outros operadores. Será um beneficiário. A RTP produz conteúdos de serviço público porque não depende da RTP a distribuição. O que a RTP poderá fazer no futuro será dentro das campanhas que o próprio Governo possa fazer, de esclarecimento sobre a TDT. Mas, na realidade, a RTP é um produtor de conteúdos de serviço público, não é um agente da distribuição. Os agentes da distribuição aí terão um papel fundamental.

Qual deve ser o papel do operador da rede de TDT – Portugal Telecom?

O papel da PT, no meu ponto de vista, tem que ser aquele que está descrito, que levou ao concurso em que se apresentou como candidata e que ganhou. É esse o papel, que está muito bem descrito nas suas próprias obrigações. Quanto ao facto da PT ter IPTV e outro tipo de distribuição, o Governo tem que estar muitíssimo atento e os reguladores também têm que estar bastante atentos para que o cidadão – não digo o consumidor – mas o cidadão, não seja minimamente prejudicado nem seja empurrado para esta ou para aquela tecnologia. Tem que haver neutralidade. É fundamental garantir um serviço universal e gratuito. Eu acho que a PT conseguirá, com certeza, separar muito bem cada uma das suas funções.

Qual deve ser o papel do regulador – ANACOM?

De atenção. De atenção, como tem tido, a esse tipo de comportamento no mercado.

Nós tivemos uma posição diferente da ANACOM. Continuamos a entender – e na nossa deliberação os argumentos estão lá todos muito claros - que é mau que os multiplexes B e F não sejam utilizados. Para nós não é argumento dizer que já temos a cobertura do país em satélite ou o que quer que seja. Decididamente não é a mesma coisa. Fazer uma oferta associada ao “free-to-air” de canais, que seja de uma distribuição quase universal, mais aberta. Temos posições diferentes. Por muito difícil e não tão produtivo que fosse o serviço, acho que poderíamos tê-lo.

Gostaria de adicionar outros comentários ou recomendações relativos ao processo de switch-over da TV digital em Portugal?

A recomendação básica são campanhas de comunicação. Campanhas eficazes, muito concretas para explicar muito bem às pessoas que a passagem para o digital traz-lhes vantagens na qualidade do sinal e, se calhar, num futuro próximo, vantagens na oferta de mais produtos.

 

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