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ADOPT-DTV

Entrevista - Impresa
Quarta, 06 Abril 2011 14:06

Entrevista Impresa (2010-11-15)

1. Quais os principais argumentos que podem convencer os telespectadores portugueses a voluntariamente adoptarem a TV digital?

Historicamente, os argumentos são potencialmente vários. Eu concentrar-me-ia mais na questão: o que é que as pessoas ganhariam ao mudar? Que vantagens teriam? Até a questão do 5º canal ficar embrulhada juridicamente, mais um canal poderia ser um bom isco. Depois, a hipótese de, eventualmente, haver alta definição ainda antes do switch-off era outro isco, mas em princípio, isso também não vai acontecer. A única coisa que agora se pode argumentar é a imagem ser melhor, mas acho sinceramente que, para o cidadão comum, não há grandes vantagens em mudar ou, pelo menos, em mudar antecipadamente. Porque quanto mais tarde ele mudar, provavelmente mais baratas serão as caixas que terá que pôr e, se esperar um pouco mais de tempo, pode aproveitar e trocar a televisão. Sinceramente, se fosse um cidadão, para mim era uma chatice ter que trocar. Logicamente que há pessoas mais previdentes que outras e, sendo a mudança inevitável, há pessoas que talvez prefiram mudar só para não ter que fazer tudo a correr. Mas os portugueses normalmente deixam tudo para a última. Para mudar antes do switch-off não creio que haja argumentos muito fortes. Há outro argumento que é importante: o facto de poder haver televisão paga. Ou seja, antes do concurso para a televisão paga ter sido anulado, eu ainda podia pensar “É pago, mas por mais 10 euros vou ter muito mais canais”. Aí, mais gente podia querer mudar. Mas, de facto, neste momento, para além da questão da inevitabilidade, não vejo que haja grandes argumentos.

2. Disse que antes do switch-off não haverá alta definição. Ainda se falou na possibilidade de haver um canal de HD conjunto…

Sim, esse canal até poderá existir, mas como vai ser um pouco uma mescla de conteúdo, não vai permitir um marketing muito forte. Portanto, não é aí que as pessoas vão ver uma vantagem.

3. O que pode motivar ou incentivar os portugueses mais reticentes a adquirirem um televisor ou uma caixa descodificadora de TV digital?

O incentivo é que as pessoas se apercebam. Podem ter medo de ficar sem televisão e antecipar um pouco o processo por causa disso. Supostamente nos termos do concurso da TDT gratuita está uma verba destinada a pessoas mais carenciadas, com rendimentos mais baixos, que não tenham possibilidades, para quem 70, 80 ou mesmo 50 euros por uma caixa é um investimento importante. Se isso (a verba) se anuncia já, as pessoas vão ficar quietas.

4. A compra de televisores ou de caixas descodificadoras deve ser subsidiada? Quem deve beneficiar da subsidiação?

Ao subsidiar na íntegra ou mesmo parcialmente toda a população, podemos estar a falar facilmente em dois milhões de lares. Grande parte destes são, de facto, pessoas com baixos rendimentos, reformados, para quem faz diferença e a quem não vejo a comprar um televisor ou uma caixa descodificador. Podem eventualmente haver esquemas de crédito mais facilitado, a prestações, o que pode ajudar. Pagar 5 euros por mês durante 12 ou 14 meses é mais suave do que pagar à cabeça. Mas isso já é da competência das entidades financeiras. Não há hipótese de subsidiar mais de 100 mil, 200 mil, 300 mil pessoas, é só fazer as contas. Como sempre acontece, haverá alguém a querer furar o esquema e vai apresentar rendimentos mais baixos do que realmente tem, etc. e aproveitar-se da situação nem que seja para poupar 10 euros. As caixas devem ser subsidiadas para quem efetivamente tem rendimentos mais baixos e para quem está mais isolado.

5. Quais os principais obstáculos ou barreiras à plena adopção de TV digital em Portugal?

A partir de uma determinada data vai ser impossível. A pessoa tem mesmo que aderir, senão fica sem televisão. A questão aqui é se isso causará ou não mais tensão social. Estamos a falar de potencialmente muitas centenas de milhar de pessoas que, de um momento para o outro, ficam sem televisão, e sobretudo pessoas que estão horas e horas a ver televisão. A barreira é um pouco essa: não há motivação nenhuma para mudar. É o “sexappeal” - a atractividade da proposta - que não é muito. Na prática, a pessoa vai gastar dinheiro e vai ter a mesma coisa.

6. O facto do 5º canal gratuito não ser lançado, à partida, antes da data do switch-off – previsto para 26 Abril de 2012 - é prejudicial ao sucesso da adopção TV digital?

Isso e o HD. Para algumas pessoas – não as mais carenciadas - o HD podia ser um incentivo. Mas, mais do que isso, paradoxalmente, o facto de não haver um bouquet de canais pagos. Provavelmente o operador que o explorasse iria apresentar pacotes com vários preços e, se calhar, por 10 euros por mês eu podia ter uma dúzia de canais extra. Podia até nem ser a SportTV, mas a Eurosport, por exemplo.

7. Canais temáticos como a SIC Notícias, a SIC Radical, etc. poderiam fazer parte destes pacotes?

Aí é mais complicado porque esses canais têm alguma componente de publicidade - que é importante, mas não é fundamental - e depois vivem muito do que recebem dos operadores. E os operadores – Meo, Zon, Cabovisão, Vodafone, etc. - não vão desistir não só de roubar clientes uns aos outros, como de tentar ir buscar as pessoas que ainda não têm a chamada Pay TV. E, por isso, pôr uma SIC Notícias em aberto, poderia ser interessante, depois do switch-off – porque antes não há espectro para isso – mas estaria a comprometer o próprio negócio da SIC Notícias ou outro qualquer. Esses canais temáticos nunca serão canais de massas como os generalistas e, por isso, é muito mais confortável para os canais temáticos serem distintivos de uma determinada plataforma de PayTV.

8. E no caso da RTP? RTP Memória, RTP N?

Não estou a ver grande vantagem. A RTP também, provavelmente, ganha algum dinheiro com eles.

9. Mas sendo serviço público, eles não teriam outras responsabilidades?

Na nossa opinião, a RTPN e a RTP Memória não são serviço público. Nós não aceitamos que a RTP, sendo operador público, vá fazer canais temáticos que nem sequer sejam de acesso universal. Ou seja, à partida, a própria criação desses canais já está inquinada. Logicamente que, se me disser que a partir de agora esses canais vão passar a ser abertos, aí já é diferente.

10. Em Espanha, os cidadãos passaram de 6 para 20 canais. Houve um grande acréscimo na oferta…

Sim, mas o processo também foi muito lento. Um pouco como em Inglaterra, em Espanha houve uma falsa partida. Mas em Espanha havia a vantagem de os subscritores por assinatura serem relativamente curtos, comparados com Portugal. Neste momento, a maioria dos lares portugueses já recebe a televisão por via não hertziana. Em Espanha não era assim. Se a TDT paga tivesse aparecido em 2002 ou 2004 ainda podia ser uma alternativa competitiva face a uma TV Cabo ou a uma Meo, que nem existia na altura. Infelizmente, neste momento, a proposta TDT já é uma mera transferência de tecnologia. É obrigar as pessoas que recebem o sinal analógico a terem que se equipar para receberem um sinal digital, o que é uma chatice para toda a gente. É uma chatice para os operadores, é uma chatice para o Estado, porque haverá reclamações, é uma chatice para as pessoas. E, no fundo, interessa muito mais ao Estado na perspectiva de ficar com o espectro livre e de poder harmonizar as frequências com os restantes países da Europa. Mas não é mais do que isso. É uma questão espectral, de tecnologia. Não vai ser, infelizmente, um salto, a não ser que, depois, com o que sobrar, se abram outros concursos para canais. O problema é que quem for explorar canais pagos vai ter que ter uma proposta muito “low cost”. No máximo 12 canais custarem 10/12 euros por mês. E mesmo assim vão apanhar uma franja, na melhor das hipóteses, de 400/500 mil pessoas.

11. Que recomendações faria no sentido de contribuir para um processo bem sucedido de conversão do sistema analógico de TV para o digital?

Informar bastante as pessoas, comunicar. Houve países que optaram por uma postura quase de chantagem, a mostrarem uma televisão cujo ecrã, de repente, fica negro e a dizerem “É assim que vai ficar a sua televisão”. Uma visão mais terrorista. Se calhar nós não devíamos ir por aí. Devíamos explicar às populações o que vai acontecer e que é um salto tecnológico necessário. Apesar de tudo, é muito pior do que quando se saltou do preto e branco para a televisão a cores, em que foi preciso mudar as televisões mas houve uma melhoria claramente qualitativa e não teve que haver um switch-off do preto e branco. Neste caso, deve comunicar-se às pessoas e tentar agarrar em dois ou três argumentos talvez um pouco mais empolados do que efectivamente são. Os projectos-piloto vão começar e podem ser um bom balão de ensaio.

12. Como chegar às pessoas de idade, com baixa literacia tecnológica e com necessidades especiais? Acha que há gente que se vai aproveitar destas circunstâncias?

Quando foi a passagem para o Euro houve essa questão do aproveitamento. Houve logo uns trafulhas nas aldeias a dizer às pessoas de mais idade que tirassem as notas de escudo debaixo do colchão, que eles faziam a troca para o euro por elas, e depois ficavam com o dinheiro. Há sempre uns espertinhos que se aproveitam dos menos informados. Só se consegue comunicar através da própria televisão. Admito que os operadores estão dispostos, nos espaços informativos, a falar sobre o assunto, mas vai haver muita resistência das pessoas. O problema é chegar aos menos informados.

13. Como avalia a comunicação que está a ser feita em relação à conversão da televisão analógica para o digital?

Tem sido muito “B2B”, mais entre os “stakeholders” do que propriamente para a população em geral. Vejo o que há nos jornais e tudo isso, mas só cerca de 20 por cento da população é que lê jornais regularmente. Apesar de tudo, a questão do switchover é uma questão muito técnica. Quando foi do Euro, era a questão do dinheiro e as pessoas percebem de dinheiro porque é algo mais material. As caixas e ondas hertzianas são algo mais abstracto.

14. O que fazer com o dividendo digital, ou seja, com o espectro radioeléctrico disponível após o desligamento do sinal analógico?

Esse espectro é muito vasto. Logicamente que há sempre duas correntes no meio disto tudo. Uma corrente é mais dos operadores de telecomunicações, concretamente comunicações móveis, outra é mais a dos broadcasters. O Estado é soberano, mas no nosso entender, enquanto operadores de televisão, a nossa licença duraria mais dez anos. Portanto, moralmente nós seriamos utilizadores desse espectro mais dez anos e estamos a colaborar, dentro do possível, para que haja essa transição. Achamos que temos um direito moral de parte desse espectro poder vir a ser utilizado para aplicações quer de radiodifusão de televisão, quer de radiodifusão de rádio, como o DVB-H, esse tipo de tecnologias um pouco incipientes. Mas também temos consciência de que, em relação ao regulador – neste caso a ANACOM – os “stakeholders” ou os “acionistas” da ANACOM são sobretudo operadores móveis e isso pesa bastante, até porque é esse tipo de serviços que dá dinheiro. Sendo o espectro um bem público e tendo nós esse direito moral durante dez anos, acho que a actividade de radiodifusão televisiva e de rádio não devia estar completamente posta de parte. Devia haver ali um quinhão - que depois podemos discutir se é 30%, 40%, etc. - reservado para nós.

15. No panorama das aplicações do dividendo digital - como HDTV, mobile TV, canais regionais e locais, serviços interactivos - julga que as coisas vão pender um pouco mais para o lado do mobile TV?

Acho que o consumo de televisão está a arrancar. Há aqui dois sinais contraditórios: o primeiro é em relação ao DVB-H. Eu posso receber televisão de duas maneiras: via transmissão de dados, ou via hertziana. Há quem diga que, para conseguir fazer as coberturas mais complicadas, dentro dos edifícios por exemplo, a cobertura teria que ser tão celular que não iria compensar e seria mais fácil utilizar as redes dos operadores móveis, que já existem para dados. Por outro lado, também é verdade que aos operadores de televisão convém espraiar o prime-time. Parece útil para os operadores poderem estender o contacto com os telespectadores. A Lusófona é um bom exemplo disso. Tenho aqui dez mil alunos, que se deslocam em transportes públicos, têm tempos de espera, intervalos entre as aulas e querem, por exemplo, ver os “Morangos com Açúcar” ou outra coisa qualquer. Se eles puderem ter acesso à emissão que estiver a dar, seja na SIC ou noutro canal, mesmo em ecrãs mais pequenos como os dos telemóveis, conseguem perceber bem as legendas e só precisam de ter um auricular para poderem estar calmamente a ver o seu programa de televisão preferido. Para nós, a vantagem é que isso é como se fosse uma emissão normal, conseguimos mais gente e vender mais aos anunciantes. Logicamente que, se forem os operadores móveis a tratar disso, já é com a lógica do operador de cabo ou operador de PayTV, em que têm um pacote que não é gratuito, enquanto o DVB-H podia ser tendencialmente gratuito. Também é verdade que os fabricantes destes aparelhos terminais dependem muito mais dos operadores móveis e, por isso, é muito fácil aos operadores móveis “assustarem” os fabricantes e impedirem-nos de ter um sistema de recepção de televisão autónomo, hertziano.

16. Como caracteriza a estratégia dos governos portugueses no domínio da televisão digital?

Nós, em Portugal, temos umas circunstâncias um pouco diferentes. Temos o cabo (incluindo satélite e IPTV) muito avançado. Acabamos por estar ali um bocadinho entre os dois mundos: ter muito hertziano, mas também ter muito cabo. Por isso, por um lado, a tecnologia não ter amadurecido e, por outro, ter havido mudanças de governo e de pastas, etc. e ainda ter havido alguns recuos na questão da TDT paga fez com que isto não fosse fácil. Mas estes processos nunca são fáceis. Sabe-se que a extensão de danos que se pode causar é muito grande.

17. Qual deve ser o papel do operador de serviço de público de televisão – RTP?

Igual aos outros. Os operadores de televisão estão os três interessados em que isto corra bem, mas já sabemos que isto não deverá correr bem.

18. Qual deve ser o papel do regulador – ANACOM?

Deve ser uma espécie de pivot no meio disto tudo. Mas, por outro lado, deve tomar algumas decisões que, se calhar, têm que ser difíceis.

19. Nomeadamente…

Libertar algum espetro: ou lançando um novo concurso de TDT paga ou reconfigurando o espectro de maneira a poder dar aos actuais operadores de televisão mais hipóteses.

20. Mais hipóteses como?

Poder, por exemplo, ser reservado um mux para o operador público e um mux para os privados. Não é propriamente obrigar os privados, mas dar a opção de fazer a gestão desse espectro e de mais tarde eventualmente poderem ter mais canais, se quiserem ter. Acho que, apesar de tudo, ainda se ia a tempo de se criar um bouquet de TDT paga. Ia ser difícil, mas ainda se ia a tempo porque é aquela franja da população “low-cost”.

21. Qual deve ser o papel do operador da rede de TDT – Portugal Telecom?

É a obrigação da cobertura. Depois a ANACOM é que sabe, mas sabe-se da existência de uma verba para a comunicação e de uma verba para a subsidiação de equipamentos, que constam da resposta ao concurso.

 

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